sexta-feira, 24 de novembro de 2017

relato de parto - welcome to partolândia

Agora que você já se recuperou do momento bafão do post anterior, vamos, enfim, ao relato de parto mais enrolado e empurrado com a barriga da blogosfera. Prestenção, pegalá as gordices que eu sei que você tem na dispensa e senta que lá vem mais história...

(se você ainda não leu o post anterior, corre lá que eu tô te esperando)


"Dizem que antes de um rio entrar no mar, ele treme de medo. Olha para trás, para toda a jornada que percorreu, para os cumes, as montanhas, para o longo caminho sinuoso que trilhou através de florestas e povoados, e vê à sua frente um oceano tão vasto, que entrar nele nada mais é do que desaparecer para sempre. Mas não há outra maneira. O rio não pode voltar. Ninguém pode voltar. Voltar é impossível na existência. O rio precisa de se arriscar e entrar no oceano. E somente quando ele entrar no oceano é que o medo desaparece, porque apenas então o rio saberá que não se trata de desaparecer no oceano, mas de tornar-se oceano." - Osho


‘Irmã, não nasce na quarta feira não, é dia de futebol na escola. Nasce na quinta porque estou com preguiça de ir à aula de violão.’

E assim aconteceu. Aquela conexão de quem dividiu o mesmo útero. Praticamente um complô.

Dia 14/03, uma terça feira, fui à ultima consulta com a G.O., o resto do tampão já havia saído, eu estava com 1cm de dilatação e estava tudo ótimo com Dona Azeitona. Não poderíamos utilizar remédios indutores, já que eu tinha uma cesárea anterior, e iríamos esperar até 41 semanas para fazer induções naturais. Naquele momento já estava toda trabalhada no medo do trabalho de parto não engrenar. 

No Dia 15/03 à noite, uma quarta feira, com a gravidez nos 45 minutos do segundo tempo e a paciência acabando mais rápido que a bateria do meu celular (e do seu também), notei que estava molhada: êpa, tô vazando. Botei o carefree amigo e mantive um leve foco na paranoia.

Umas 2 horas depois, eu já estava no terceiro carefree e nada daquele cheiro de água sanitária que todo mundo diz ter o liquido amniótico, logo presumi que não era a bolsa: legal, tô com incontinência urinaria. Estava bacana saber do meu grau evolutivo. Pensei em dormir, mas acabei me jogando o google: ´como saber se minha bolsa estourou’ ‘incontinência urinária na gravidez’ ‘liquido amniótico sem cheiro’ ’41 semanas e estou vazando’. Neurose apenas.

As contrações de sempre iam e voltavam... Se o trabalho de parto for todo assim, tô feita. Esse povo fala demais da dor. Que frescura, tranquilinho isso daqui. CUSPI PRA CIMA, lógico. 

Às duas e meia da manhã eu sinto um tsunami de água transparente, inodora e quentinha escorrer pelas minhas pernas. Água, muita água no meu colchão NO-VI-NHO, benza Deus. Acordo o marido com a maior empolgação do mundo: ‘a bolsa estourou, é hoje’, seguido por: ‘ainda bem que não tem mecônio, né, MAGIIIINA como seria limpar essa sujeirada toda’.

Enquanto eu, plena, estava comemorando internamente o inicio do trabalho de parto no estilo programa do Silvio Santos: é ritmo, é ritmo de festa (é pra ler cantando a musiquinha pra dar aquela agregada de valor ao post), marido estava tendo um breve ataque de pelancas.

Graças ao siricutico do marido, imediatamente avisamos pra G.O. e para a enfermeira obstétrica (vamos chamar de E.O.). Meu próximo passo seria avisar quando as contrações estivessem de 5 em 5 minutos. Ok, tenho tempo ainda... 

Lá fui eu fazer a unhas. Pimba, uma contração, pausa no esmalte. Agora sim uma contração decente, bem mais forte e real. Naquele momento eu ainda estava com aquele sentimento de novidade: AI QUE LEGAL ISSO DE TRABALHO DE PARTO HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ HÁ.

Volta pro esmalte... E pausa pra contração, e volta pro esmalte, e pausa... Assim se sucedeu por uns 15 minutos, quando o marido, preocupado, liga pra E.O. avisando que as contrações estavam com uma frequência de 3 minutos entre elas. 


Pois é blogosfera, já comecei logo no nível hardcore.

‘Ah, bacana, meu trabalho de parto vai ser rapidinho’ #iludida

Enquanto eu finalizava as unhas (pode julgar, minha gente, pode julgar), E.O. estava a caminho. Quando chegou, as dores já estavam cada vez mais fortes e longas. Junto com ela chegou minha mãe pra buscar meu filho, que estava feliz da vida por não precisar ir à escola aquele dia. Ele não sabia se ficava contente pelo nascimento da irmã ou se ficava assustado com meu comportamento, digamos, que, primitivo. Era aquele mix de desconfiança, medo e felicidade estampado no rosto.

A partir daí eu perdi a noção de tempo. Fiz um coque horroroso no cabelo... Coque não, nó mesmo (que tô tentando tirar até hoje) e fui pro chuveiro, sempre tomando aquele cuidado para as unhas não borrarem. Glorioso. 

(Pausa para o momento fofurômetro: minha gatinha, que estava super antenada com a situação, não saía do meu lado.)

La pras 5 e pouca da manhã (do meu relógio inventado, pq não tinha noção NENHUMA de hora), E.O. foi me examinar: colo já fino e centralizado com um de dilatação. Um. Hum. 1. ONE.

UM, GALERA, UM.

TODA-A-DOR e continuava com UM de dilatação... E eu já me considerava na partolândia há muito tempo. Que ilusão. Naquele momento saquei a pauleira que iria enfrentar: agora fudeu.

Para evitar engarrafamento, marido e E.O. acharam melhor irmos para a maternidade (acabamos optando pela maternidade mais longe de casa). Coloquei um vestido cafona qualquer e fomos. Nesse momento eu ainda tinha alguma dignidade. Digo, alguma, apenas.

Trajeto casa-maternidade: O que falar sobre a experiência de estar em trabalho de parto num transito matutino carioca? Sofrência blogosfera, sofrência seguida de quase morte com requintes de crueldade. Eu berrando, segurando o rebozo e apertando a mão da E.O., que estava lá firme e forte ao meu lado. Culpei o marido por T-O-D-A-S as ruas esburacadas dessa cidade. Tá rachadinho ali no cantinho do asfalto, tá vendo? Culpa do meu marido.

Às 7h da manhã demos entrada no hospital (só sei disso porque estava escrito no partograma), onde minha G.O. já estava esperando, e fui direto para a sala de Parto Natural. Sala bacana, escurinha, chuveiro, banheira, luzes imitando estrelinhas, bem naquele estilo: entra aqui, fique à vontade, pega uns drinks... Coisa fina, só glamour.


Ah a banheira, divina banheira. Devia ter tirado uma foto pra emoldurar e colocar na parede da sala. Como ajudou, passei umas boas horas lá. Era levanta, deita, senta... Tudo pra ver qual a melhor posição para encarar as contrações. E digo amigas, não há. Dói sempre. Aquele papinho de ser tipo pedra nos rins, balela. Não há adverbio de intensidade capaz de descrever a dor física que eu estava sentindo.


Logo eu, que me preparei tanto para um parto tranquilo, cheio de conexão com o meu corpo e de contrações amigas. A dor, que antes era a menor das minhas preocupações, se transformou em personagem principal. Eu estava ali, de mãos dadas com ela, na minha partolândia. Não cheguei nem a ficar brava com as piadinhas inoportunas do meu marido. Aquele meu lado meio controlador e perfeccionista estava lá longe me dando tchauzinho. A solução era se jogar como se não houvesse amanhã.

A cada contração, a sala de parto, até então silenciosa, era contemplada com um maravilhoso ‘AAAAI AAAAI AAAAI’ vocalizado por mim, porque, na hora da dor, meu bem, não dá pra segurar não. E se alguém colocasse alguma música da minha playlist preparada especialmente pro parto, eu arremessava o celular longe. Eu precisava do silencio, e vocalizar me ajudou a passar por todo o processo (e a morrer de vergonha também).

O tempo foi passando e eu nem fui sentindo. Periodicamente G.O., E.O. ou a G.O. assistente vinham verificar os batimentos da bebê.

Continuei na minha banheira amiga. Cheguei a dormir dentro dela e brigar com a contração me acordando: ‘não, não, nãaaao, de novo nãooo, eu estava dormindo, poxa vida’... Todos riram. Menos eu. Eu tava puta, tava dormindo, poxa.

Ali minha dignidade já estava no fundo da poça de cuspe que eu dei pra cima. Eu parecia mais uma sobrevivente de um apocalipse zumbi. E pra piorar meu cabelo decidiu me sacanear... Estava semi molhado, coque caindo, cheio de frizz.  Eu já estava sem top, toda nua, zero pudor. Tudo muito glorioso. E primitivo. E nada, nada de sanidade mental.


Lembro que foram feitos 3 toques ao longo do meu trabalho de parto (com 1, 7 e 10cm). Acredito que o momento em que estava com 7cm de dilatação, foi quando a dor chegou ao seu  apogeu. E lá se manteve. Caminhei no vale das sombras da morte. E temi pra cacete.

Com 10cm de dilatação eu não tinha mais forças nem pra mudar de posição. Não por ter uma dor com intensidade aumentada, mas por já estar muito, muito esgotada. Acabei optando pela banqueta de parto. Eu sentadinha lá, acocorada, meu marido atrás de mim me segurando. E assim demos início ao tão temido por mim período expulsivo.

Nessa hora eu pedi ajuda. Eu não aguentava mais, se existe algum limite de exaustão física, eu estava nele. Cheguei a pedir buscopan, vai que, né?!

‘Você esperou chegar a 10cm de dilatação pra pedir anestesia? Fez charme, pois sabia que não poderia mais tomar.’

É, acho que foi charme. Era só pra dar o recado: tá doendo, tá?! Tô sofrida.

A equipe, sempre tão doce, me deu forças para continuar:

’sua bebê já está chegando, só falta nascer. Ela precisa de você.’


E ali você, já tão desgastada, retira forças (não sei de onde) pra continuar. É, eu estava parindo minha gente.
‘Faz força quando sentir vontade’

Que vontade, minha gente? Foi então que naquele momento eu senti uma pressão interna tão forte que não sabia nem se era o tal momento de fazer força, mas fiz. Força, muita força, uma força que nem eu sabia que seria capaz de fazer... Enquanto eu fazia força, meu marido atrás de mim, me segurando, fazia força junto apertando levemente os meus braços. Aquele papo de força amiga sabe, vai que nasce mais rápido, né?!

 Agora visualizem o dilema: pra abrir pote de azeitona preciso da ajuda do marido, mas pra parir tô de boa. Ok, vida que segue.

A pressão era tanta que eu nem estava sentindo mais a hora que acabava e começava a contração: ‘quedê o espaço entre elass? QUEDÊ??? TÔ DE ALTOS’. Fazer força me tirava a dor. Fazer força era bom. Eu só queria ter minha filha nos braços e acabar logo com tudo.

E naquele momento tão especial me lembrei do medo de fazer cocô no parto. Tanta coisa linda pra focar, e minha mente trolladora me fazendo pensar em fazer força pra frente (alô, dignidade?).

O expulsivo durou tipo uns 754 anos apenas. Pra aumentar um pouquinho o nível de dificuldade, D. Azeitona estava com dorso à direita e precisava rotacionar um pouco mais para nascer, aumentando assim o tempo do período expulsivo. Era a vida me testando.

Pra completar, comecei a sentir a tal ardência. Eu disse ardência? Que pessoa modesta. O que chamam de Círculo de fogo, eu chamo de labareda do inferno versão vagina. Oh God, como ardeu!


Toda aquele papo de pessoa empoderada que vai fazer e acontecer no parto, sentir a cabecinha do bebê saindo, dançar e sorrir como uma deusa, caiu por terra. Eu já estava aflita. Que tanto de força eterna é essa que eu tô fazendo e minha bebê não nasce?

‘porque minha bebe não esta nascendo? Mimimi Why God, Why? Mimimi’

‘sua bebe esta nascendo, quer sentir a cabecinha?’

‘NÃO’

Oi? Como assim eu disse NÃO, blogosfera? Passei quase 41 semanas jurando pela nossa senhora protetora dos blogs que eu fazia questão de sentir minha filha saindo de mim e na hora nem tchum??? Pode isso?

E pra piorar, das poucas vezes que olhei pra baixo, via um mar de sangue e gosma que só me faziam pensar que meu útero estava rasgando #drama

Em meio ao caos, eu foquei.

E então, com 40 semanas e 6 dias de gestação, em um ensolarado 16 de março, ao 12:38, ela veio. Eu, acocorada na banqueta, com meu marido por trás me segurando, senti cada partezinha da minha filha saindo de dentro de mim. Escutei o chorinho dela antes mesmo de ver seu rostinho. E peguei aquele serumaninho que gestei com tanto amor. E me emocionei com toda a força. E conjuguei o verbo no infinito. E ali eu, então rio, tornei-me oceano, novamente.


Olivia nasceu com 51cm e 3,905kg e teve apgar 9/10.
Foram 10 horas intensas de trabalho de parto.
Meu parto foi natural, sem qualquer tipo de intervenção.
Eu tive uma pequena laceração e levei ponto.
Parir dói (e muito), mas tem poesia. Faria tudo novamente.
(Ah, eu não fiz cocô no parto rs)


15 comentários:

  1. Menina, chegou a cair uma lagriminha aqui! Seu relato é tão parecido com o meu em alguns momentos!
    Tb já comecei as contrações no nível hard, de 3 em 3 minutos, também não entendi quando a GO falou "pode fazer força quando sentir vontade" e cinco segundos depois senti vontade (ela é bruxa!), também caminhei no vale das sombras e da morte e achei que fosse morrer, sumir, virar purpurina, não dar conta, essas coisas.
    Parabéns! Muita alegria parir do jeitinho que a gente acha a melhor maneira, né? (e a melhor maneira às vezes é admitir que não dá o PN e ir para a cesárea consciente)
    Só senti falta do grand finale: o encontro entre irmãos!
    bjs

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    1. Ahhhh ele filmou todo emocionado a irmã chegando pra pesar. Pena que eu não estava lá pra ver... Hoje são um grude só!
      Na hora a gente se sente atropelada por um caminhão, mas depois que nasce, só alegria ♥

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  2. Quanta emoção! lindo seu relato.
    detalhe: quando minha bolsa estourou, eu tb achei que era incontinência urinaria. nenhum momento me ocorreu que seria a bolsa!
    kkkk
    ó ceus que cabecinha a nossa!

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    1. a gente lê, lê, lê mais um pouco e chega na hora, nem tchum kkkk
      como foi seu parto?

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  3. Adooooro seus posts, seu bom humor, e dói muito mesmo, rsrsrs.
    Eu depois de 2 horas já não aguentei mais e pedi a cesária, acho maravilhoso quem consegue!!

    Bjus

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  4. Olá!! Amei seu relato! Seu blog é inspirador. Gostaria muito de saber quem é sua G.O.????

    Beijos e felicidades.

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  5. Apesar do seu texto ser cheio de humor... o final foi lindo. Me emocionei.

    Vc é muito forte :) conseguiu!!! parabéns!!

    Ninguém conta relato tão bem como vc!!!

    amei!! beijos e que a bebeia e bafão lindo continue trazendo alegrias!!!

    beijos!!!

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  6. que relato mais lindo!!!
    e que bom que foi tudo como vc sonhou! melhor coisa ne??
    mas traga seu relato anterior tb, pra gente ver as diferenças por alguem que já passou pelos dois!!
    bjos

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    1. Obrigada Giu, pode deixar que vou fazer um relato do meu primeiro parto também ;)

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  7. Sabia que seu relato de parto seria incrivel
    Mesmo nao estando blogando mais eu fiquei por aqui,firme e aguardando por este post kkkkk
    boj

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  8. Muito lindo!!!
    Amo relato de parto!!!
    E meus parabéns pelo meninão! :)
    Beijos

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